Gerente de internação do CEM falou sobre depoimento de menores (Foto: Catarina Costa/G1 PI)
O gerente de internação do Centro Educacional Masculino (CEM), Herberth Neves, declarou que abrirá uma sindicância para identificar os responsáveis pelo vazamento das imagens do adolescente Gleison Vieira da Silva, 17 anos, que foi
espancado até a morte na quinta-feira (16) por companheiros de cela. A vítima é uma dos quatro adolescentes
condenados pelo estupro coletivo em Castelo do Piauí.
As imagens, que mostram o corpo ferido e o rosto de Gleison Vieira desfigurado, foram compartilhadas nas redes sociais. Herberth Neves quer saber se houve negligência por parte dos policiais ou educadores de plantão com relação a divulgação das fotos do garoto.
“Poucas pessoas tiveram acesso ao local onde estava o corpo do adolescente. Estes profissionais serão investigados. Vamos apurar quem vazou porque foi uma postura antiética”, afirmou.
Jovens condenados dividiam a mesma cela no
CEM (Foto: Ellyo Teixeira/G1)
"Os acusados não falaram a motivação do crime, mas acredito que houve uma discussão entre eles e o Gleison, porque ele foi o delator do estupro. Os três confessaram ter matado o companheiro e explicaram como fizeram isso. Percebi a frieza deles em comentar o ato, como se fosse algo banal. Não demonstraram nenhum remorso ou arrependimento o que mostra o grau de periculosidade destes menores", declarou.
Detalhes do crime
Segundo Herberth Neves, os adolescentes não utilizaram nenhum objeto para matar Gleison Vieira e que o crime aconteceu durante o banho."Um dos menores relatou que deu uma ‘gravata’ na vítima, para imobilizar e impedir que ela gritasse. Depois os três menores iniciaram uma sessão de espancamento, atingindo principalmente a cabeça de Gleison", falou.
Para Herberth Neves, a morte de Gleison foi uma surpresa para toda a equipe do CEM, porque os quatro adolescentes estavam se dando bem e por este motivo dividiam a mesma cela.
"Sabíamos da ameaça dos demais internos aos condenados, mas desconhecíamos existir algum atrito entre eles. Tanto que no dia da internação no CEM, conversei com os quatro por cerca de 40 minutos e todos concordaram dividir a mesma cela. Os menores tinham medo de represálias", disse.
OAB diz que houve falha em vigilância
A coordenação do CEM garante que os quatro adolescentes estavam na mesma cela por medida de segurança, mesmo a vítima sendo o delator dos outros três. Entretanto, para o presidente da comissão de segurança da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), secional Piauí, a responsabilidade pela morte do jovem é da administração estadual. “O estado tem tutela jurisdicional desse adolescente e é obrigação dele zelar pela vigilância. Penso eu que houve uma falha nessa vigilância”, contou.
Juiz Antônio Lopes fala sobre crime dentro do CEM
em Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)
“Eles (os internos) disseram que os agressores tiveram foi sorte, porque iriam matar os quatro. Poderia ter sido uma chacina. Há 14 anos vejo que o estado não tem cumprido o que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é manter separados menores com alto grau de agressividade, a exemplo de estupradores, e quando há riscos para a integridade física deles”, disse o juiz.
Antes da barbárie,
Gleison vivia em uma casa pequena no bairro Refesa, periferia da cidade, com cinco irmãos, o padrasto e a mãe grávida de três meses. A renda da família é a aposentadoria do irmão mais velho, que tem problemas mentais, e mais R$ 270 do Bolsa Família.
Elizabeth Vieira, 35 anos, conta que o filho “se desviou” quando tinha apenas 13 anos de idade. A mãe disse que sabia que ele usava drogas, mas não tinha ideia de como as comprava.
Casa de Gleison em Castelo do Piauí
(Foto: Patrícia Andrade/G1)
Gleison, segundo relatos do Conselho Tutelar, teve várias passagens pela polícia por furtos e roubos. Para a mãe, que amamentou o filho até os dois anos, o garoto sempre saía de casa dizendo que ia para o “videogame”.
“Eu sabia que ele usava maconha, que fazia coisa errada. Pedia tanto, conversava tanto, mas ele só fingia que ouvia. As irmãs pequenas chamavam de ladrão, e ele brigava com elas.”
“Se ele se envolveu (com crimes), não foi com conselho meu. Eu disse para ele servir ao bem e não ao mal. Que façam festa (pela sua morte), mas não eu. Minha dor eu carrego comigo”, disse a mãe nesta quinta-feira.
Corpo de adolescente espancado foi enterrado em
Teresina (Foto: Ellyo Teixeira/G1)
A mãe do garoto, o padrasto e uma tia acompanharam o enterro. Policiais militares e conselheiros tutelares também estiveram no cortejo.
Falta de estrutura
A Globonews procurou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que realiza multirões e fiscaliza a condição de presídios e unidades socioeducativas no país, para falar da morte do adolescente.
O CNJ disse que não vai se manifestar especificamente sobre a morte de Gleison, mas encaminhou os relatórios das últimas visitas feitas à unidade.
O mais recente, de 2012, mostra que o CEM de
Teresina funcionava de forma adaptada no prédio de uma antiga escola, que a estrutura física não era adequada e que havia deficiência nas atividades educacionais oferecidas aos adolescentes.
A mãe da vítima disse ainda que acredita que a briga entre os jovens tenha sido motivada por causa dela. No vídeo, ela diz que ele a defendia muito. "Ele tinha que pagar pelo crime que cometeu, mas não desta forma", disse.
Destino dos outros três jovens
Após o crime, os jovens que são apontados como os autores do homicídio foram transferidos do CEM para o Complexo da Cidadania, na Zona Sul de Teresina. Representantes do Centro Educacional e da Justiça irão se reunir para decidir onde esses garotos irão cumprir o restante da suas medidas socioeducativas.
Entenda o casoNo dia 27 de maio, quatro adolescentes foram brutalmente agredidas, estupradas e depois jogadas do alto de um penhasco em
Castelo do Piauí, a 190 km de Teresina. Uma das jovens morreu após 10 dias internada no Hospital de Urgência de Teresina (HUT). As outras três também ficaram hospitalizadas e já receberam alta.
Os quatro adolescentes suspeitos de participação no crime foram apreendidos horas após a barbárie. Um quinto suspeito, Adão José de Sousa, 40 anos, foi preso dois dias depois.