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domingo, 23 de agosto de 2015

Extremo ocidental : Na praia, sem nada

Havia duas maneiras de fazer esta viagem: de Caminha a Sagres, ou de Sagres a Caminha. A escolha era totalmente livre, parecia-me. Mas logo me fizeram ver que não era bem assim. Seria estranho avançar do Sul para o Norte. Por alguma razão, o normal seria começar no Minho e terminar no Algarve, disseram-me. Por alguma razão, em Portugal, quando alguém parte, parte para sul.
Não sei se esta lógica se funda nos habituais trajectos de férias, nos vectores dos fluxos migratórios das últimas décadas, ou nas pulsões ancestrais da Reconquista, mas a verdade é que há algo de libertador no acto de rumar a sul.
Quando se progride no terreno, sente-se que cada etapa é uma vitória, uma ascensão a esferas mais limpas e puras. Há um despojamento, um abandono de bagagem, à medida que avançamos para o meridiano, que no entanto é uma miragem que se afasta. O que vem a seguir é sempre experimentado como uma espécie de recompensa.
A cada cem quilómetros entramos num novo círculo, pleno de características, marcas específicas inconfundíveis, ainda que ilusórias, definidas pela sua posição geográfica relativa e a direcção de onde se provém. É assim que, a partir de Santa Cruz, nos sentimos chegar ao Sul. A paisagem altera-se, faz-se mais árida e plana, a luz torna-se mais clara.
Seguindo pela Estrada Nacional 247, junto às arribas de Ribamar e da Ericeira, parece no entanto ter-se entrado numa zona de transição. É uma área de excepção, diferente, com personalidade de oásis, que liga, ainda que numa estranha atitude de ruptura, os pinhais e as dunas do Norte com as planícies arenosas do Sul. Aqui, ao contrário de quase toda a orla costeira portuguesa, a terra chega verde até ao mar. Há campos agrícolas muito próximos das praias, vegetação densa e fresca cobre o dorso das falésias, que surgem em cortes abruptos, sem transições dunares, ou de plantas de zonas secas, como se o mar aqui tivesse chegado há pouco tempo. Faz lembrar, mais do que outras zonas do litoral português, as Rias Altas da Galiza, ou os tons contrastados da húmida costa cantábrica.
É nestes caminhos traçados em terrenos altos, em que, de braços abertos, quase podemos tocar os campos de milho e a água, que nos sentimos seres de vários mundos, capazes de compreender o continente e o mar, a Europa e o Atlântico, e os seus nexos subtis e inquebráveis.
A serra de Sintra cria e abriga este mundo de neblinas, e define-o como um pequeno “Norte”, por oposição ao “Sul” da Linha do Estoril. O cabo da Roca marca a divisão. A praia da Adraga, a Praia Grande e a Praia das Maçãs, tal como a Ericeira e todas as estâncias a norte da serra, são húmidas e ventosas, e inauguram até os seus dias de Verão com densos nevoeiros.
Se obedecermos ao percurso ribeirinho, saindo da EN246 para as praias de Sintra, e daí tomar a estrada da montanha que vai ao cabo da Roca, desce pelas aldeias da Azóia e da Atalaia até ao Guincho, e daí até Cascais, pode quase sempre observar-se a mudança climática a olho nu. Descendo pela Malveira da Serra, é frequente acontecer sairmos de uma nuvem, como quem aterra numa superfície com luz própria. Depois, se olharmos para trás, lá está a aura de fumo sobre a serra, a nuvem endémica e espessa que nos faz acelerar convictamente para sul.
A marginal que liga Cascais a Lisboa é um universo à parte, com os seus superlotados bares de praia, os seus hotéis de luxo e apartamentos de milhões de euros. Também isto contribui para que olhemos a zona como um outro “Norte”, em relação ao “Sul” que é a Costa de Caparica, o Meco e Sesimbra.

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